Câmara realiza Sessão Solene pelo Outubro Rosa

Palestra, pedidos por mais estrutura na rede municipal de saúde centralizam o debate no Legislativo

Como tem feito nos últimos anos, na manhã desta terça-feira, 6, a Câmara Municipal de Marabá realizou Sessão Solene pelo Outubro Rosa, com o intuito de discutir ações de prevenção e enfrentamento contra o câncer. A sessão foi aberta pelo presidente da Câmara, Miguel Gomes Filho, e repassada em seguida para a vereadora Vanda Américo, que conduziu os trabalhos.

Participaram representantes de grupos sociais como o Grupo de Apoio Esperança, de clínicas de prevenção e tratamento contra o câncer e do Departamento de Saúde da Mulher da Secretaria Municipal de Saúde e líderes comunitários.

O médico oncologista Rodolfo Amoury proferiu palestra na abertura do evento e disse que o paciente bem informado é o que tem mais chance de ser bem tratado e lembrou que o câncer de colo de útero é o que mais acomete as mulheres em nossa região, diferente da média nacional, em que o câncer de mama é mais frequente. “A idade é o principal fator de risco para o câncer, junto com dieta inadequada, sedentarismo e uso de cigarros”, disse o médico.

A enfermeira Janaina Oliveira Soares, coordenadora da Saúde da Mulher em Marabá, apresentou calendário da SMS para o mês de outubro nas unidades básicas de saúde e revelou que diminuiu, nos últimos dois anos, a quantidade de mulheres que procura as unidades de saúde para prevenção e que o índice de câncer em Marabá ainda é grande no município.

Este ano, segundo ela, já foram realizadas até setembro 1.600 mamografias. Mas PCCU, em 2014 foram 10.300 exames, enquanto este ano apenas 5.500 até setembro. “Aumentamos o número de postos de coletas, realizamos muitas palestras, mas as mulheres não estão procurando realizar seus exames”, lamentou.

Janaína observa que as campanhas de informação estão aumentando e também a luta para sensibilizar as pessoas, mas o número de exames realizados é cada vez menor. “Esperamos que o interesse das pessoas não seja apenas em outubro, mas em todos os meses do ano. A demanda neste mês se torna maior do que podemos atender”, reconheceu.

A enfermeira disse que estão espalhados no município 23 postos, sendo 13 na zona rural, sem contar locais itinerantes. “Neste mês, todas as quintas-feiras os centros de saúde estão abertos para atender as mulheres. É a Quinta da Mulher. Os postos, junto com as universidades, acadêmicos e clínicas de fisioterapia estão fazendo um bom trabalho nos postos”.

Janaína também alertou que é preciso fazer o preventivo o mais cedo possível e por mais que a SMS alcance o maior número de coletas, o número de mulheres que está com exame alterado é superior ao do ano passado. “Queremos prevenir. As mulheres chegam ao posto sem queixa e vamos fazer exames de rotina. As mulheres que não sentem nada devem fazer exames também”, disse.

Premiação

Janaína Soares revelou que aumentou o número de pacientes com alteração no PCCU e revelou que foi lançado um projeto denominado ACS em Ação. Através dele, a Secretaria de Saúde vai premiar os agentes comunitários de saúde que encaminharem mais mulheres que nunca fizeram exames de PCCU. “Estamos rastreando mulheres que nunca fazem os exames. A premiação será em dinheiro. Temos em Marabá 45 mil mulheres de 25 a 64 anos e se temos apenas 5 mil exames de todas as faixa etárias então os resultados estão muito pequenos”.

Por outro lado, a coordenadora da Saúde da Mulher no município disse que muitas mulheres têm medo de fazer exame de PCCU e dizem que temem o diagnóstico. “Precisamos quebrar esse preconceito em nossa sociedade”, advertiu.

Eliomar da Silva disse aos presentes que faz parte do grupo de Apoio Esperança, que surgiu da necessidade de levar uma palavra de conforto e esperança para quem tem câncer. Atualmente, o movimento tem 82 pessoas como membros. Eles orientam pacientes para minimizar o impacto da notícia de que tem câncer. “Se souberem de alguém que está com câncer, pode pedir para nos procurar que estamos dispostos a ajudar”, disse Eliomar.

Testemunhos de pacientes

Fernanda Milhomem revelou que faz tratamento de câncer de mama há três anos e desabafou sobre o sofrimento no tratamento pelo SUS. Precisou fazer a quimioterapia fora de Marabá e lamentou que o TFD (Tratamento Fora do Município) dispõe a passagem para Belém e ajuda de custo no valor simbólico de apenas R$ 24,50 por dia. “A gente Às vezes pegamos o ônibus à noite, passa o dia no hospital, e não temos casa de apoio para ficar. Bom Jesus tem casa de apoio e Marabá não. Quando ficamos por lá, temos que arcar com hotel ou pensão. A quimioterapia não é fácil”, disse, pedindo ajuda ao prefeito João Salame e aos vereadores para que seja providenciada uma casa de apoio em Belém e uma ajuda de custo. “Sonhamos com um hospital oncológico que atenda pelo SUS em Marabá”.

Karla Vital foi outra que deu seu testemunho sobre o TFD. Ela faz tratamento de câncer em Belém e contou o que os pacientes passam. Disse que ficou dez meses morando na capital para o tratamento sem ver os filhos. “Quando se tem câncer, deixamos de viver a nossa vida e vivemos outra. Precisamos desse tratamento aqui em Marabá”, clamou.

Maria da Conceição Ribeiro relatou que pediu para fazer a mamografia nos postos de saúde de Marabá e disse que o resultado do exame demora mais ou menos um ano, tempo que ela considera longo demais. “A gente não tem condição de pagar as clínicas particulares”, informou.

Análise dos vereadores

A vereadora Vanda Américo, que presidiu a sessão, considerou que esse tipo de movimento (sessão do Outubro Rosa) mexe com a sociedade e é muito importante. Ela avalia que ainda há muitas deficiências por parte do município para realizar diagnóstico do câncer e disse que falou com o secretário de Estado para realizar convênio com duas clínicas existentes na cidade de Marabá para que as pessoas possam fazer tratamento aqui. “Sai muito mais barato para o Estado pagar o tratamento em Marabá e mais confortável para as famílias também”, observou.

Vanda disse que uma comissão de vereadores de Marabá foi a Belém falar com o secretário de Estado de Saúde, Victor Mateus, solicitar tratamento de câncer via SUS em Marabá. Ela pediu assinatura de outras pessoas para entregar um documento ao titular da Sespa cobrando celeridade na liberação deste serviço através de duas clínicas particulares existentes em Marabá. “Não podemos ficar aguardando. Temos duas clínicas especializadas na cidade e precisamos que o SUS seja conveniado com elas, através do governo do Estado”, disse Vanda.

Ela pediu que a Secretaria Municipal de Saúde faça a aquisição de mais um mamógrafo e disse esperar melhoria no sistema de saúde municipal e considerou não ser possível continuar com o mesmo discurso. “Como município polo, converge muita gente para Marabá. Não se pode dar desculpa o tempo inteiro por estar faltando isso ou aqui. Pela quantidade de pessoas e condição de município polo precisamos de um outro aparelho de mamografia. Nosso objetivo não é apenas vestir rosa nessa sessão. Queremos que haja melhoria no sistema de saúde, com mais um mamógrafo e realizando mais cirurgias eletivas de interesse das mulheres no HMM”, ressaltou.

A vereadora Irmã Nazaré lamentou que em 2014 morreram 17 mulheres com câncer em Marabá. “Quando falamos a verdade, não podemos nos entristecer, mas refletir. As pessoas que recebem oração vivem mais e ficam mais fortes. Vamos continuar orando por quem tem câncer e outras doenças”, disse.

O vereador Leodato Marques sugeriu que a Comissão de Saúde da Câmara acompanhe mês a mês as ações da Secretaria de Saúde do município e do Estado para melhorar a prestação de serviços para mulheres em relação à prevenção e tratamento de câncer. Ele avalia que mulheres da zona rural têm mais dificuldades ainda para ter acesso aos exames de prevenção da doença. “Nos eventos que tenho participado não vejo bons resultados sendo apresentados neste aspecto nos últimos dois anos”, lamentou.

O vereador Ubirajara Sompré criticou que mulheres continuem enfrentando filas de 12 horas para conseguir atendimento nos centros de saúde. “Precisamos ouvir da Secretaria de Saúde o que está acontecendo”.

Por sua vez, o vereador Pedro Correa disse que conversou com o secretário de Estado de Saúde cobrando a retomada das obras de reforma e ampliação do Hospital Regional. O gestor estadual havia garantido que os trabalhos retornariam em setembro último, o que não aconteceu. Pedro criticou também a demora no HMM para realizar cirurgias eletivas. “Não cabe mais para um município com porte de Marabá atrasar serviços que são de sua responsabilidade e essenciais para a sociedade”.

O vereador Miguel Gomes Filho, o Miguelito, elogiou as ações e cobranças feitas durante as ações do Outubro Rosa e disse que, em 32 anos militando na política, nunca tinha ficado tão tocado com um testemunho como o da jovem Fernanda Milhomem, acometida pelo câncer. “Quando ela disse ‘a gente precisa viver outra vida’, passei a refletir e ver que todos nós precisamos mudar nossa concepção, inclusive os políticos. O atendimento que a saúde dá para estas pessoas deve se basear nisso, avaliando que ela está em outra vida. O câncer deixa algo na cabeça das pessoas que elas sempre vão imaginar que estão em outra vida”, disse Miguel.

Por fim, a vereadora Vanda Américo disse aos presentes que alguns encaminhamentos estão sendo dados. A Câmara vai acompanhar os mais de 500 exames de mamografia que estão esperando por resultado desde abril deste ano através da Comissão Permanente de Saúde.