Ocupação de terreno da Alpa acalora discursos na Câmara Municipal

Vereadores entendem que recado da comunidade marabaenses foi dado através da “invasão” ocorrida no fim de semana

A maior parte dos vereadores que usaram a tribuna durante a sessão ordinária desta terça-feira, 10, manifestou-se em relação à ocupação da área do projeto Alpa (Aços Laminados do Pará) que foi doado pelo governo do Estado para a mineradora Vale com o intuito de instalar ali uma grande siderúrgica.

Para o vereador Edivaldo Santos, a Alpa foi um sonho que trouxe muita gente de fora, mas o projeto não vingou e muito dinheiro foi gasto na terraplanagem. “Várias pessoas se encontram em nosso município sem residência e esses sem-teto acabaram ocupando aquela área para tentar construir a casa própria”, sustentou Santos.

O vereador Guido Mutran considerou que a população tomou uma atitude que os políticos não tiveram e, embora seja radical, fez com que o País inteiro se voltasse para Marabá. “Agora eles estão olhando para cá. Nossos políticos não abraçaram essa causa, e tantas mentiras que nos foram passados. Espero que este ato sirva para que os políticos possam acordar, porque nossos sonhos estão indo para o Estado do Ceará e os pesadelos ficam aqui”, criticou Guido.

O vereador sugeriu uma grande mobilização da classe política – envolvendo vereadores, deputados estaduais, federais e senadores do Pará para cobrar uma solução quanto à instalação da Alpa e de outros projetos prometidos. “Viva a população de Marabá que arregaçou as mangas e teve coragem de realizar essa manifestação”, disse Guido.

Por outro lado, na visão da vereadora Antônia Carvalho, a Toinha do PT, a ocupação foi desnecessária porque ela pode fazer com que a Vale tenha motivos para não instalar mais o projeto Alpa neste município. Para ela, o terreno precisava ficar lá desocupado para que servisse de pressão para a empresa não se esquecer de seu compromisso.

Irmã Nazaré também avalia que Marabá inchou com a propaganda da Alpa, que não se materializou. “Não podemos dizer nada para as pessoas que estão ocupando a área da Alpa. E não dá para nós ficarmos aqui o tempo todo só chupando o dedo. Temos de nos mobilizar para cobrar e protestar também”, salientou Nazaré.

O vereador Pedro Correa rememorou, através de uma apresentação de slides, as promessas da Alpa e pediu para seus colegas vereadores para que Marabá “não entregue essa luta”. “Independente de o terreno estar sendo invadido, não podemos abandonar essa causa. A verticalização é uma luta desde que cheguei a Marabá, 30 anos atrás. Uma empresa coreana e o BNDES estão investindo com a Vale para implantação da siderúrgica do Pecém, no Estado do Ceará. Reconheço esforço dos integrantes do PT para o projeto, mas não são apenas os deputados que vão decidir, mas a presidente da República. Nós podemos e devemos pressionar a presidente Dilma para que ela cobre da Vale a instalação da siderúrgica”, sugeriu.

Para a vereadora Irismar Araújo, Marabá e o projeto Alpa têm uma representação fraca ainda. “Nossa bancada conta com 17 deputados federais, mas não há a metade arregaçando as mangas para cobrar do governo a decisão política necessária. O governo federal é quem estabelece os financiadores e eles não estão sendo pressionados”, lamentou.

O vereador Pedro Correa recordou que no passado recente, a Vale informou que o cronograma do projeto Alpa está suspenso por causa da demora do governo federal em viabilizar a logística para esta região, como a derrocagem do Pedral do Lourenção, tornando o Rio Tocantins navegável o ano inteiro. “Não podemos abandonar essa luta, nesta ou em outra área. A expectativa aumentou, mas os serviços públicos não acompanharam as demandas. Essa luta tem de ser desta Casa, mas também dos deputados estaduais e federais”, conclamou Pedro Correa, que criticou posicionamento de alguns políticos garantido a instalação da Alpa para ganhar voto. “Temos de ter cuidado. Não cabe ao político prometer aquilo que não é sua responsabilidade”, desabafou.

Com um discurso contundente, a vereadora Vanda Américo advertiu que a cidade passa por uma crise sem precedentes, estando com seu distrito industrial quase desativado. “O Pará não vem fazendo o seu dever de casa desde quando? Desde o porto de Itaqui, e agora a Alpa foi para o Ceará. Produzimos nosso minério e não verticalizamos. A força política e a desorganização do povo são fatores preponderantes. Se a Alpa estivesse aqui, teríamos uma cadeia de emprego fantástica. A cidade passa por uma crise gigantesca, com muita gente desempregada. Os políticos têm de aprender a defender seu território. Temos 17 deputados federais e eles não aparecem nas reuniões para discutir as demandas do Estado. Diferentemente do Nordeste. Em setembro vão inaugurar o Pecém, mesmo sem minério. Não se pode tratar um povo apenas na base da promessa”, criticou.

O vereador Leodato Marques lembrou que quem entrou com liminar pedindo reintegração de posse não foi o Estado, mas a Vale. “Ela tem domínio da área e deveria devolvê-la ao Estado ou ao município de Marabá para que seja implantado projeto de desenvolvimento para esta região. Posso até não concordar que seja destinada a área para quem já tenha moradia, porque boa parte possui. Mas essa área não pode ficar com a Vale. O Estado pagou mais de R$ 60 milhões por ela e precisa dar uma destinação de uso para beneficiar muitas pessoas”, alertou Leodato.