Helenilson Pontes diz que Câmara de Marabá tem papel estratégico no desenvolvimento regional

Helenilson Pontes diz que Câmara de Marabá tem papel estratégico no desenvolvimento regional

por André da Silva Figueiredo publicado 10/05/2021 10h29

O mais recente convidado da Comissão de Desenvolvimento da Câmara Municipal de Marabá para dialogar sobre alternativas de crescimento e geração de emprego e renda para esta região, Helenilson Cunha Pontes deu uma aula sobre os desafios fiscal e tributário que o Pará precisa vencer para que o sul e sudeste do Estado possam ser beneficiados a partir da mineração.

A reunião ocorreu na última quinta-feira, dia 6 de maio, na Sala de Comissões da CMM, e contou com a participação dos vereadores Miguel Gomes Filho (presidente da Comissão de Desenvolvimento), Aerton Grande, Pedro Corrêa e Vanda Américo. Também estiveram presentes o empresário e consultor da Comissão, Ítalo Ipojucan, João Tatagiba, presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá, e Sancler Ferreira, ex-prefeito de Tucuruí.

Pontes, que ocupou o cargo de vice-governador do Pará e é doutor e livre-docente em Legislação Tributária pela USP, apontou os quatro grandes desafios do Estado do Pará e reconheceu que muitos deles passam pelo sul e sudeste do Estado, as regiões que mais crescem.

Ele destacou que os quatro grandes desafios do Pará são fiscal e tributário; ambiental; fundiário; e de diversificação de sua base de produção. Mas ele tratou apenas do desafio fiscal e tributário, explicando que o Pará tem o 11º maior PIB do Brasil, à frente de outros estados como Ceará e Mato Grosso, que possuem logística melhor. Todavia, quando dividimos a produção pelo número de habitantes, o Pará despenca de 11º para 20º no ranking, porque tem muita gente, com mais de 8,5 milhões de moradores.

“De forma contraditória, o Pará é o 3º Estado com população mais pobre do País. É um PIB que não gera renda para quem vive e mora no Pará. É uma riqueza gerada aqui, mas não reproduzida para o povo. Ele não pertence aos paraenses. Este é o modelo que põe o Estado para cima, mas é falso. Seu povo não recebe dividendos advindos da mineração, por exemplo”, lamenta.

Na ponta do lápis, Helenilson Pontes observou que o Pará tem 800 reais de renda per capita, o que representa menos de 40% da média nacional. Quando o assunto é IDH, o Estado ocupa apenas a 24ª posição. “O problema é o modelo de desenvolvimento, concentrador de renda nas mãos de mineradoras, de grandes empresas que não pagam impostos”.

Ele lembrou que a Lei Kandir desonera quem exporta produtos primários por ficar livre de pagar ICMS. “Se a gente recebesse os impostos devidos, não precisaríamos de ICMS tão alto para a população. Se as mineradoras pagassem o que nos é de direito, receberíamos R$ 16,1 bilhões. De forma comparativa, todo o ICMS arrecadado pelo Pará em 2020 corresponde a R$ 13,8 bilhões. Em outras palavras, o lucro da Vale é construído pela pobreza do povo do Pará”, alfinetou.

Como um professor, Helenilson recordou em sua apresentação que o grande problema é a desoneração implementada em 1997, com a Lei Kandir, quando foi concedida isenção de impostos para empresas como a Vale porque o Brasil tinha déficit na Balança Comercial. Desde então, essa mudança vem impactando de forma negativa na receita das cidades e estados que têm a mineração como atividade econômica.

“Hoje não há necessidade, porque o Brasil tem mais de R$ 350 bilhões para dar sustentação econômica ao Real, diferentemente de 1997, quando havia problema de déficit na balança comercial. Entre 1997-2021, o Pará exportou 330 bilhões de dólares e importou 18 bilhões de dólares. Nesses 24 anos, o Pará gerou 60% da reserva cambial que o Brasil tem atualmente. Com isso, o Estado sofreu perdas com a Lei Kandir, as quais chegam a R$ 162,818 bilhões – esse seria o valor se tivesse tributando as exportações desde 1997.

Pontes falou também sobre o atual cenário da cobrança da taxa mineral, criada na gestão de Simão Jatene, em 2011, quando ele era vice-governador do Pará e o mentor do projeto.

O nome oficial é Taxa de Controle, Monitoramento e Fiscalização das Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Minerários (TFRM), conhecida por taxa mineral, instituída pelos estados do Pará, Minas Gerais, e Amapá, que será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos próximos meses.

No Pará, a cobrança dessa taxa foi instituída pela Lei Estadual 7.591, sancionada no dia 28 de dezembro de 2011, com a finalidade de cobrar tributos a todas as pessoas jurídicas que tiverem direito à exploração mineral no território paraense. Em 2020, o estado conseguiu arrecadar R$ 540 milhões, provenientes do pagamento dessas taxas.

Por causa da letargia em incrementar projetos de desenvolvimento no Estado, sobretudo em Marabá, o governo do Estado, recentemente, aumentou o valor das taxas de 0,6% para 1,5%. “Se não mudarmos o modelo de desenvolvimento, vamos apenas mudar o CPF do governador. Não podemos reclamar só do gestor estadual, porque ele tem só 140 reais por mês para investimento por cada cidadão, porque o orçamento público é insuficiente para os 8,5 milhões de paraenses”, reconhece Helenilson Pontes.

Como um dos advogados tributários mais destacados do Norte, ele ressalta que é necessário tributar mais a mineração. “Somente a mineração poderia dobrar a arrecadação do Estado do Pará. O governador Helder tem pouco dinheiro em caixa para investimentos. Por isso, está fazendo empréstimos para custear suas despesas. “Se perdermos a taxa mineral, teremos de devolver R$ 5 bilhões às mineradoras”, adverte.

CAMINHOS PARA A MUDANÇA

Após a apresentação de Helenilson, os vereadores e demais convidados fizeram várias perguntas ao convidado, que respondeu uma a uma.

Questionado sobre qual caminho jurídico para buscar a redenção da economia do Pará, notadamente o sul e sudeste do Estado, ele destacou que desde o início da criação e cobrança da taxa mineral defendeu que os recursos fossem distribuídos e não ficassem em um caixa apenas. “Sua utilização deveria estar vinculada às regiões mineradoras. Precisamos fazer essa ponte nem que seja orçamentária, para mostrar que a taxa tem uma vinculação com a região mineradora. Não podemos cobrar uma taxa da mineração e pagar com ela qualquer despesa. É o momento de a Alepa vincular a utilização da taxa às regiões de mineração. Estou falando sozinho sobre isso no Estado”, alertou.

Também observou que é necessário arregaçar as mangas – políticos de todos os níveis – para voltar a tributar a produção de minério bruto, o que deve ser prioridade do Estado do Pará. Para isso, será necessário alterar a Constituição. “Se não fizermos isso, nunca teremos verticalização da mineração. O sistema tributário empurra a Vale para massacrar o Estado do Pará”, vociferou.

UMA SAÍDA LOCAL

Helenilson Pontes também informou aos vereadores que os municípios também podem cobrar taxa mineral, desde que o façam por meio de serviços específicos. “Internamente, um município pode criar uma taxa dessa, por meio de um cadastro de mineração. Uma vez firmada a competência no STF, em breve, vamos avaliar o tamanho da taxa”.

Enquanto isso, ele sugere que a Câmara se manifeste politicamente, porque é um município grande, de referência no País, e certamente terá voz no Supremo Tribunal Federal. “Marabá é o centro e precisa agir como centro das discussões, como vocês estão fazendo agora. A luta política tem de constranger todos aqueles que têm mandato. Precisamos de mudança na tributação da energia elétrica. Perdemos a taxa de recursos hídricos por inércia de políticos. Temos guerras políticas a serem travadas e essa Casa tem papel estratégico por sua importância geopolítica”, finalizou Helenilson.

Sancler Ferreira lamentou que a tributação da geração de energia também seja penalizada, assim como a da mineração. Para ele, Marabá é o centro de gravidade da região e precisa mesmo aglutinar esses debates para qualificar os quadros que a região possui. “Vamos vencer essa guerra com inteligência e debate qualificado. Essa é uma reunião de novos inconfidentes. Precisamos discutir a questão tributária que é muito relevante para todos nós”, comparou.